O realismo estético e filosófico do cinema contemporâneo

Por Pedro Balduino
crítico de arte e multiartista visual: desenha, pinta, esculpe, filma, escreve e fotografa.
http://pedrobalduinoarte.wordpress.com

Criado como um aprisionamento temporal da objetividade fotográfica, o cinema (assim como a fotografia) não se contenta mais em simplesmente mimetizar a realidade. Assumindo o cinema como arte, temos de um ponto de vista aristotélico, a compreensão do cinema enquanto recriação do real.

Podemos nos questionar o seguinte: se as demais artes se libertaram da busca por um realismo estético em prol de expressões – e não mais representações – de uma realidade, por quais razões o cinema ainda se atém a uma busca por este tipo de realismo? Porque ainda somos expostos a tecnologias que proporcionam uma imersão fílmica cada vez mais próxima da realidade do olho? Precisamos de 3D, ou 48 fps?

 Um exemplo recente desta busca pelo realismo estético é o filme O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (Peter Jackson, 2012) que nos apresenta a tecnologia dos 48 fotogramas por segundo: tão próxima da maneira como o olho humano enxerga e compreende o movimento que por vezes confunde-se a tela de projeção com uma janela para uma paisagem. O crítico de cinema Pablo Villaça do Cinema em Cena citou esta tecnologia como uma descoberta tão gritante para a História do Cinema quanto à chegada do som. No entanto, reflito: é compreensível ansiarmos por novas tecnologias que mudem nossa maneira de experimentar o cinema, mas quantas delas são realmente revolucionárias? Em um mundo de cinemas periféricos emergentes é pertinente enaltecer tecnologias industriais como primordiais para a compreensão do Cinema enquanto obra de arte?

Perdoem-me pelo excesso de questionamentos, no entanto, antes de tentar responder quaisquer destas questões, devemos assumir o maior fato que existe sobre o Cinema: este é, e sempre será pura ilusão.

Não me refiro apenas à ilusão dos fotogramas em movimento. A ilusão do cinema é presente em todos os aspectos que configuram a recriação da realidade. Desta forma, além de buscar uma evolução da realidade estética, o filme O Hobbit: Uma Jornada Inesperada recria a realidade ao nos apresentar – em 48 fps – monstros, seres e paisagens impossíveis. E este é o seu principal legado.

Neste contexto, poderíamos afirmar que o documentário é o gênero que mais se aproxima da realidade e que menos a recria, pois se utiliza desta não apenas esteticamente como também em seu contexto temático e de produção. Mesmo assim não podemos assumir isto como regra. Alguns casos como Ilha das Flores (Jorge Furtado, 1989) fogem deste esquema ao utilizar a ficção como instrumento de abordagem do real.

Para concluir a reflexão, cito o teórico Rogério Luz que em seu artigo “A Construção da Narrativa” afirma:

“[...] o combate (entre os estilos de cinema) se dá sem dúvida em torno da forma de mostra e dizer e não apenas em torno do que é mostrado ou dito. Mas a arte do cinema, veicula algo mais: o que se quer mostrar do real, dizer sobre o real, o que se quer do real.” (BENTES, 2007).

A busca pela qualidade técnica da imagem é reflexo da busca pela representação do real, inerente à História da Arte e à História. Mas num contexto em que a própria linguagem cinematográfica e elementos como montagem e efeitos especiais configuram-se como recriações da realidade (partindo-se das perspectivas de recriação de Aristóteles), podemos aceitar que esta busca ainda vai ecoar pela História do Cinema, evoluindo e recriando-se cada vez mais.

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